Contracultura na rede

14 07 2009

Recebi esse email hoje, vou fuçar mais tarde, mas fica a dica. No melghor estilo faça-você-mesmo punk, Pazcheco Santos, o cara que fez a mítica biografia de Arnaldo Baptista, acaba de lançar a nova versão do seu site. Deixo a apresentação para o próprio:

“Prezados usuários Do Próprio Bol$o,
refazendo esta lista eu vi como sou contraditório e como há uma
quantidade enorme de coisas pendentes e mal arranjadas. Depois desse
‘mea culpa’ venho intimá-los a curtirem s na medida do possível o
“NOSSO” site www.dopropriobolso.com.br – é claro que não tenho ideias
avançadas para ganhar alguns trocados e acredito piamente que a
maioria absoluta aqui nos conhece dos antigos carnavais do século
passado. Eu ainda escrevo as mesmas coisas de sempre, mas aproveito
para destacar o comentário político e esperto do Laerte Braga, as
ficções do Barbieri e matérias regionais sobre o que acontece no
Brasil.

FIQUE POR DENTRO DA RÁDIO DO PRÓPRIOBOL$O
QUE BREVEMENTE ESTAREMOS DISTRIBUINDO PRÊMIOS E ATÉ UMA ESTADIA EM LONDRES!

Atualmente Antonio Celso Barbieri investiu pesadamente na
regulamentação da rádio. O logotipo maior da rádio acabou com a
sensação de vazio e inutilidade da Rádio Do Próprio Bol$o!
A visão agora do site é um imenso degradê. Sua vista não cansará.
Além do movimento constante dos slide há várias camadas de textros
para mergulhar.
Você está curioso? Pois saiba que estamos com 12 novos álbuns on line.
A dinâmica da Rádio Do Próprio Bol&o mudou na forma como se apresenta.
Em destaque, “Black Ice” o laureado álbum novo do AC/DC! Centenas de músicas -
Dezeenas de horas – Peço que os usuários do prórpio bol$o enviem
sugestões: Como estão ouvindo a rádio?
Não esquecendo que o site www.dopropriobolso.com.br está com uma
velocidade maior. Estamos chapados e repletos de ideias lúgubres -
abração!
PS. E não esqueça vossa avaliação é muito importante e necessária.”





Valeu, Zé

22 05 2009

“Músico, compositor, maestro, arranjador, ator, autor, pintor, publicitário, professor e jornalista”. Assim era definido Zé Rodrix em um release que eu recebi. Fiz piada, mas a verdade é que ele era tudo isso mesmo. E, além de tudo, uma das pessoas mais legais que já conheci. Sem exageros.

Estive na casa dele há pouco mais de um mês, para uma entrevista que eu acho que não vai mais sair. Linda casa, com um jardim florido e um pomar carregado, passarinhos cantando, uma cachorra orelhuda e gente boa, detalhes coloridos por todas as partes, um altar carregado de santos. Uma casa que pulsava vida. Tive o privilégio, mesmo que por pouco tempo, de ouvi-lo dedilhar o violão junto com a filha igualmente talentosa Bárbara, de 18 anos. Enquanto o fotógrafo fazia as fotos do pai e da fiha, os dois se olhavam e tocavam seus violões como se o tempo tivesse parado – até que o fotógrafo alertasse: “Zé, olha para a câmera!”. E ele olhava, posava, ria.

A primeira vez que eu o vi simpatizei de cara. Zé Rodrix é o tipo do cara gente boa, que dá vontade de sentar e conversar, que dá vontade de ser amigo. Foi em 2007. Eu e Aline o entrevistamos, junto com o parceiro de longa data Tavito, para nosso TCC. Zé contou histórias cabeludas, fez piada, e demonstrou o tempo todo o carinho imenso que tinha pelo amigo antigo.

Zé Rodrix era doce, e foi tão legal comigo no dia em que eu era só uma estudante pedindo entrevista quanto no dia em que eu fazia reportagem para um veículo grande. Ele era cantor, compositor, músico e tudo aquilo mesmo, mas também era um pai fantástico, um amigo incrível, uma pessoa genial – tinha uma inteligência afiada, mas passava longe da arrogância.

Criou seis filhos de cuca legal e tinha uma casa maravilhosa, cheia de livros e discos. E vida.

Hoje o dia está lindo, mas eu amanheci mais triste. Zé Rodrix faleceu de repente, ontem à noite. Não estava doente, não teve nenhum sintoma. Foi rápido e repentino. Ele era jovem. Lançaria, em breve, um disco novo com Sá e Guarabyra. Tinha 61 anos.

Eu desejo toda a força do mundo à Bárbara e à Júlia, esposa dele, e aos outros filhos e órfãos.

Boa Viagem (Zé Rodrix)
O fogo sempre vivo, o corpo nunca para
E ninguém consegue mais lhe segurar
Essa casa está pequena pro seu ritmo de vida
Qualquer dia desses vai voar pra longe
As mãos que eram tranquilas nunca mais se cruzaram
E ninguém consegue mais lhe segurar
E por mais que faça força essa casa está pequena
Qualquer dia desses vai voar pra longe
E eu que tinha a mais completa certeza
De que ia envelhecer feliz ao seu lado
Vai passando o tempo e se apagando o meu fogo,
E o seu fogo vai crescendo cada vez mais
A porta está aberta, por mais triste que seja
E eu não quero nem tentar lhe segurar
Onde o fogo queima forte, deixa só poeira e cinza
Abra as asas e pode voar
Boa viagem.

-

Abaixo, trecho (ruim, eu sei) da entrevista que eu e Aline fizemos com ele no Caiubi.

Tati





San Marcos Sierras

20 03 2009

Essa matéria saiu no UOL há um tempinho, mas pra quem não viu, cá está, chupinhada do nosso querido portal.

Aline

O lado hippie da Argentina

EDUARDO VESSONI
Colaboração para o UOL Viagem, de Córdoba

As ruas são de terra e a iluminação pública não tem cartazes luminosos; os poucos carros que circulam são abastecidos a 30 km dali; a produção agrícola local é orgânica e o mel é uma das principais fontes de renda. Essas características parecem até ser a descrição idealizada de uma sociedade alternativa escondida em algum canto isolado do planeta. Mas esse paraíso natural existe e se chama San Marcos Sierras.
  • O rio San Marcos costuma ser o ponto de encontro de locais e visitantes nos finais de tarde, em San Marcos Sierras, Argentina
Localizado a 153 km de Córdoba, esse vilarejo, declarado a capital do mel da Província de Córdoba, ficou famoso nos anos 60 durante o período ‘paz e amor’ que circulava pelo mundo. Na Argentina, o movimento de contracultura que defendia o amor livre no lugar da guerra afastou jovens dos grandes centros consumistas do país e deu origem a diversas comunidades hippies que se instalaram na região como La Sajonia, dedicada ao artesanato, e Coconanda, onde os alimentos naturais eram produzidos sem agrotóxicos.

Atualmente, San Marcos tem 3.200 habitantes fixos e a maioria da população já foi ‘contaminada’ por algumas facilidades modernas. Mesmo assim, a fama continua e os novos hippies (ou hippie 2000, como também são conhecidos os jovens do século 21 que adotaram o estilo de vida alternativa de seus antepassados recentes) não param de desembarcar na Plaza del Cacique Tulián, misturando-se entre turistas argentinos e europeus que buscam sossego no Valle de Punilla, na bela região serrana de Córdoba.

Na vila, artesões fazem arte; do resto a natureza se encarrega. Declarado ‘Território Não Nuclear’ e de ‘Proteção à Natureza’, San Marcos convida o visitante para o turismo ecológico entre serras cortadas por rios e com fácil acesso por trilhas curtas.

Para se ter uma visão geral do que atraiu a geração flower Power a primeira parada deve ser o Cerro de la Cruz, um morro próximo ao povoado que conta com um mirante com vista panorâmica dos vales da região e da Quebrada do rio San Marcos. A paisagem que se vê do alto, em dias claros, compensa o esforço da subida íngreme e serve como cardápio natural para escolher as próximas atrações. E não são poucas.

Nos finais de tarde, locais e visitantes vão preenchendo as margens do rio San Marcos, formando uma espécie de praia local de água doce. Os mais preguiçosos lançam toalhas sobre a grama e esperam o espetáculo do pôr-do-sol sobre a passarela que une o centro aos bairros mais afastados. Mate quente e criollos (uma espécie de pão folhado) ajudam a passar o tempo.

  • Um dos espetáculos naturais mais belos do vilarejo é assistir ao pôr-do-sol sobre a passarela que une o centro de San Marcos Sierras e os bairros mais afastados
Quem tem fome de aventura segue o caminho quebrada adentro seguindo o curso contrário do rio. As trilhas são bem sinalizadas e dão acesso a atrativos locais como os diques El Cajón e Arturo Illia; a Agua Mineral Grande, fonte de águas hipotermais que formam um arroio; e os Ojos al Cielo, pedras que serviram de espelhos para observação astronômica utilizadas pelos comechingones, aborígenes que habitaram aquelas serras até a fundação de Córdoba, em 1573.

Mas a atração mais inesperada é recente, inaugurada há apenas oito anos, e fica em uma casa com teto em formato de cogumelo escondida a 1,5 km e meio do centro do povoado. Assim é o Museu do Hippie, único do gênero no mundo.

continua aqui




Toninho Horta perdeu a guitarra

4 02 2009

Depois de Jorge Mautner perder o violino…

assunto: Guitarra do Toninho Horta está desaparecida

Pessoal, Repassem, por favor, esta msg nas suas listas de E-mails e Orkut. Queremos encontrar a guitarra de Toninho Horta o mais breve possível! Passem a msg boca-a-boca tb, por gentileza! Quem puder ajudar transmitindo nas rádios tb será de muita ajuda! A guitarra foi esquecida no porta-malas de um taxi na madrugada do dia 23 janeiro, o taxi saiu da rua Alagoas, em frente ao Bar Sete Cumes. No quarteirão há ponto de taxi. Obrigada!

http://lh3.ggpht.com/_CFBBOuqK3P0/SYYTEVM7p4I/AAAAAAAADTk/0xRQCeG3YyI/s400/Guitarra_desaparecida_do_Toninho_Horta.jpg





Neurônios em curto

2 12 2008

Explicação científica para algumas alucinações visuais causadas por drogas. Interessante:

Psicodelia explicada por neurônios em curto

bowmandsa

“Está cheio de estrelas”, disse o astronauta Bowman enquanto era absorvido pelo Monolito Negro em “2001 – Uma Odisséia no Espaço”. Uma sucessão de imagens psicodélicas (criadas com fotografia slit-scan) representavam então um contato com o Divino, ou o que quer que fosse, já que o próprio Kubrick nunca deixou claro o que diabos aquele final significava. Mas era algo grande, místico, mesmo religioso.

Imagens espirais e túneis de luz afins emergem repetidamente em experiências com drogas alucinógenas, e talvez não por mera coincidência, em iconografias religiosas resultantes de “visões”, como mandalas, arte islâmica ou catedrais cristãs. Não apenas isso, surgem também em experiências de “quase-morte”, alucinações de sinestésicos, cefaléias, epilepsia, distúrbios psicóticos, sífilis avançada, distúrbios do sono, tontura e mesmo em pinturas rupestres de milhares de anos.

Esta universalidade parece indicar algo maior, quiçá contato com planos superiores, ainda que cefaléias, sífilis avançada ou distúrbios psicóticos como meio de se aproximar de deus pareça um tanto bizarro. A neurociência aliada à matemática sugere uma explicação um pouco mais mundana. Porque a ciência já anda investigando o tema.

Nos anos 1920, o neurologista alemão Heinrich Klüver dedicou-se com afinco a estudar os efeitos da mescalina (peyote), e notou como tais padrões geométricos eram repetidamente relatados por diferentes sujeitos (incluindo ele mesmo, mas esta é outra história). Os padrões acabaram classificados no que ele chamou de “constantes de forma”, de quatro tipos: (I) túneis, (II) espirais, (III) colméias e (IV) teias.

formconstantda

Pois estudos recentes, aliando descobertas sobre o funcionamento do córtex visual a modelos do funcionamento de neurônios sugerem que tais padrões podem surgir simplesmente de uma espécie de curto-circuito no cérebro. Perturbações simples no córtex visual, quando mapeadas ao correspondente que o sujeito perceberia, podem gerar padrões notavelmente similares às constantes de forma psicodélicas.

mariajoanacortexvisual32hjk

À esquerda, a representação da alucinação de um maconhado. Ao lado, a simulação da percepção gerada pela perturbação do córtex visual. Simples assim. Nada de enxergar deus, e sim um produto da forma como nossos neurônios processam imagens, e como reagem assim a perturbações em seu funcionamento. “Está cheio de estrelas”, mas todas em seu cérebro.

Ou não tão simples, é preciso ressalvar. Neurocientistas, cientistas que são, admitem que ainda não conseguem explicar todas as alucinações relatadas. O próprio exemplo acima envolve uma complexidade maior do que os modelos usados, e a simulação envolve mais especulação. Mesmo o modelo utilizado para simular a percepção dos sujeitos frente às perturbações em seu córtex visual é, ainda, rudimentar, envolvendo diversas simplificações. É uma área ainda em exploração, mas pelo visto, extremamente promissora. Explicaria bem porque tanto religiosos em transe quanto drogados e sifilíticos em estado avançado poderiam partilhar as mesmas alucinações visuais. São seres humanos partilhando a mesma estrutura cerebral submetida a alguma perturbação.

O caso lembra um episódio que aconteceu há algum tempo comigo. Escrevo uma coluna promovendo uma “Dúvida Razoável” no blog S&H, tendo como colega o amigo Marcelo del Debbio, que promove sua “Teoria da Conspiração”.

Em uma das colunas, o Marcelo propôs um exercício para que qualquer um pudesse ver o “Prana”: olhar o céu, relaxando os olhos e focar o infinito. Com o tempo, “será possível ver minúsculas bolinhas brancas, às vezes com um pronto preto. Surgem por um segundo ou dois, deixam um ligeiro traço e tornam a desaparecer. Se você persistir na observação e expandir a visão, começará a ver que todo o campo pulsa num ritmo sincronizado”.

Fig_5.0

Bem, ao ler sobre tal imediatamente comentei que o exercício e a observação era exatamente o processo indicado para ver “floaters” ou “moscas voadoras” (Muscae Volitantes). Não são elementos espirituais, e sim efeitos óticos: as “bolinhas brancas” ou pretas podem ser desde poeira sobre o olho até partículas flutuando dentro de seu globo ocular. É possível mesmo enxergar a pulsação de glóbulos em veias capilares na retina, “em ritmo sincronizado”.

O Marcelo esclareceu depois que o “Prana” a que se referia seria diferente destes efeitos óticos, que teriam movimento próprio e “formaria emanações a partir de seres vivos”, mas não posso deixar de imaginar que tais características podem ser apenas fruto de impressões subjetivas. Por que, afinal, ver “Prana” tem que envolver um processo idêntico ao usado para ver floaters, que têm uma explicação física simples?

E, voltando à psicodelia: afinal, por que ver tais imagens em transe induzido de diversas formas – a mais simples das quais é a ingestão de drogas alucinógenas, como em diversos cultos – envolve exatamente o processo para gerar perturbações no córtex visual? Por que a iconografia religiosa é tão similar a imagens padrão resultado de curto-circuitos em nosso cérebro?

Místicos podem dizer que é “mera coincidência”, mas estarão violando o dogma misticóide número 1 de que…

Coincidências não existem”.

- – -

Esta nota nem tentou explicar em detalhe os estudos envolvidos. Para tal:
- Physics Makes a Toy of the Brain (Science after Sunclipse);
- “What Geometric Visual Hallucinations Tell Us about the Visual Cortex” (PDF) Neural Computation 14 (2002):473–491.

-

Tirei daqui.

Tati





Rumos

21 11 2008

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Pessoal, faz tempo que esse blog tá meio parado. Esse post é para justificar: o projeto acabou, o livro tá pronto, devagarinho vamos tentando viabilizar o lançamento… mas, enfim: enquanto isso não acontece vamos tocando a vida. Daqui pra frente, esse blog ficará mais lentinho, porque eu (Tati) me dedicarei ao Passiflora, recém-criado blog pessoal.

De vez em quando dou um pulo aqui para ver como é que estão as coisas e atualizar os leitores e admiradores do fantástico mundo da contracultura.

Para ler sobre outros universos, vai lá: www.flordomaracuja.wordpress.com

Tati





O fracasso da Contracultura

31 10 2008

Luiz Carlos Maciel
Publicado originalmente no jornal Pasquim de maio de 1971 e
extraído do livro Nova Consciência – Jornalismo contracultural 70-72
Rio de Janeiro, Livraria Eldorado, 1973


O grupo Rolling Stones no famoso concerto de Altamont, nos EUA.

Aviso aos navegantes: com o lançamento, nos Estados Unidos, do filme Gimme Shelter, de albert e David Maysles, sobre a célebre excursão dos Rolling Stones em 1969, a mais recente curtição de todo o mundo (e, certamente, já programada para chegar ao Brasil nos próximos meses) é o fim definitivo da chamada Era de Aquarius. O movimento não passou de uma desvairada fantasia coletiva e a Contracultura fracassou – proclamam os articulistas de todos os jornais. Os episódios sangrentos de Altamont, registrados no filme, são ao mesmo tempo – dizem eles – a prova e o símbolo mais forte desse final melancólico. Até os mitos engendram o seu contrário dialético – e o Altamont foi a antítese de Woodstock. A síntese, concluem os analistas, é o silêncio.

Não se deve menosprezar a importância do novo dado. Altamont aconteceu apenas quatro meses depois de Woodstock, no dia 6 de dezembro de 1969. Para comemorar uma bem sucedida excursão pelos Estados Unidos que lhes rendeu mais de um milhão de dólares, os Rolling Stones resolveram oferecer um concerto de graça aos fãs da Califórnia, onde é alta a percentagem de hippies e afins. Escolheram Altamont, que fica a quarenta milhas de San Francisco, contrataram alguns grupos famosos para os números de abertura (Santana, Grateful Dead, Jefferson Airplane, etc.) e deram aos Hell’s Angels, a assustadora gangue de motociclistas, um caminhão cheio de cerveja como pagamento por seus serviços como “guarda de segurança”. Compareceram cerca de trezentas mil pessoas – e o desastre foi total. O congestionamento de tráfego transformou a área num verdadeiro inferno. Além do ácido e da maconha, e ao contrário do que aconteceu em Woodstock, as bebidas alcoólicas e as bolinhas de anfetamina tiveram um amplo consumo. A violência estourava a cada momento, em discussões e brigas sangrentas. Chamados de “fascistas” pelo público, os angels espancavam quem pintasse na frente. Quatro pessoas morreram: um afogado e dois atropelados pelos automóveis irritados. O restante, um estudante negro chamado Meredith Hunter, foi esfaqueado por um Angel no momento que apontava um revólver na direção do palco, enquanto Mick Jagger cantava os versos escabrosos de “Sympathy for the Devil”.

Nos dias que se seguiram, Altamont foi muito noticiado pelos jornais. Mas não muito teorizado. A euforia criada por Woodstock era forte demais e 1970 foi, de acordo, um ano carregado de otimismo. Mas a água continuava a rolar sob a ponte e o próprio Woodstock teria de ser esquecido. Aquele sonho colorido não poderia durar para sempre e, na falta de novas felizes confirmações, Altamont foi ressucitada com seus sombrios significados, como um despertar cruel para a dura realidade. Os dois filmes tornaram-se imagens poderosas, símbolos vivos da grande contradição estabelecida pela Contracultura – e 1971 pinta como um ano de depressão, o ano de Gimme Shelter e do sangue derramado em Altamont. O atradso cronológico não tem muita importância diante da força maniqueísta da imagem. Woodstock foi o Bem; Altamont é o Mal, seu correlato essencial, seu companheiro inseparável. O atraso no lançamento de Gimme Shelter e na formulação das teorias sobre “o fim da Era de Aquarius” obedeceram, ao que parece, a um timing mais profundo, ainda a ser estudado. De certo modo, era preciso que outras desilusões se acumulassem no panorama da Contracultura internacional para que a imagem maligna de Altamont ganhasse, finalmente, o primeiro plano sepultando as esperanças de Woodstock. Respondendo aos pessimistas Richie Havens me disse aqui no Brasil que os festivais não são a Era de Aquarius, não passando mesmo de uma parte sem importância dela. É o signo de um desalento mais amplo.

Como, afinal de contas, tudo chegou a acontecr? Um pocket book, Altamont: Death of Innocence in the Woodstock Nation, editado por Jonathan Eisen, procura responder a essa pergunta com um punhado de artigos e depoimentos de pessoas que estiveram lá e viram tudo. A ênfase das acusações é dupla: sobre os próprios Rolling Stones, especialmente Mick Jagger, e sobre os caminhos percorridos pela Contracultura em seus escassos anos de vida. A Jagger, acusam de persistir numa ego trip irresponsável. A sua condição de estrela do rock cercada por uma aura de charme diabólio leva-o a reforçar essa imagem através de letras que são verdadeiras exortações à violência (“Sympathy for the Devil”, “Street Fighting Man”), outras ainda e a encenações satânicas como o cortejo de Hell’s Angels com que se apresentou em Altamont. Segundo os mais místicos, Jagger tem uma transa da pesada com entidades inferiores, um pacto com Lúcifer que deve ser pago com sangue. À Contracultura, acusam de ter sucumbido aos pecados mais graves que ela acusou no sistema: neurose, sadismo, violência e um egoísmo desesperado. Ao ser absorvida pelo consumo, servindo de assunto para jornais e televisões e enriquecendo promotores de festivais e as fábricas de discos – entre muitos exemplos – a Contracultura teria sido irremediavelmente inoculada com os venenos mais letais do sistema que ela negou. Segundo Eisen, a comunidade hippie ainda não existe porque, até aqui, não conseguiu criar novas instituições capazes de enfrentar o aparato repressivo que a cerca, asfixia e, finalmente, neurotiza. Contentou-se em ilusões róseas, mas de vida curta e a grande ilusão de Woodstock só poderia resultar na realidade decepcionante de Altamont. Para esses, a Contracultura já vendeu a sua alma ao diago: viu-se glorificada nos meios de comunicação de massa e, agora, deve entregá-la ao seu legítimo dono.

Aqui no Brasil, nós tivemos a oportunidade de ver como essa transa é feita, estamos tendo ainda. Em apenasum ano, as revistas começaram a badalar o underground, qualquer imbecil que aparece na televisão bota os dedinhos em “V”, os hippies viram uma moda superficial – e a repressão se encarrega do resto. Com essa assimilação pelo sistema, estão plantadas as sementes da neurose e da violência. Não tenhamos dúvidas que, dentro de alguns meses, as nuvens escuras de Altamont estarão sobre nós, da mesma maneira que – ainda há pouco – brilhou o sol limpo de Woodstock. A rebordosa já pinta no horizonte, nas formas já conhecidas de bad trips, ego trips, pirações generalizadas, angústia e covardia, fuga e irresponsabilidade, e outras que ainda teremos, certamente, de descobrir e aprender a tratar com elas. Se Mick Jagger tem uma transa com o Diabo, foi de certo modo porque nós também a quisemos e, junto com ele, teremos de pagar ao “Príncipe do Mundo’ opreço de nossa própria alma. E se quisermos, ao contrário, enganar o Diabo e conservar a esperança, temos que encarar a triste verdade de nossas próprias ego trips, para um saque além dos nossos deslumbramentos infantis. Woodstock já era; compete a nós, agora, enterrar também Altamont.

Tirado daqui.

Tati





Acid Spot

23 09 2008

Blog bacana que linkou pra gente:

http://acidspot.wordpress.com/

Tudo, tudo e tudo. Até uma ligação insólita – mas possível, bem possível – entre a Apple e psicodelia.





Seleção de artigos sobre contracultura

2 09 2008

A revista do Nures (Núcleo de Estudos Religião e Sociedade da PUC-SP) está selecionando artigos científicos sobre contracultura para sua próxima edição.

Informações:
Estudiosos e pesquisadores podem enviar artigos sobre Contracultura para a edição janeiro/maio de 2009 da Revista Nures. A data limite para a inscrição dos artigos, que devem ser feitas pelo e-mail nures@pucsp.br, é 31/10: as normas para publicação estão disponíveis em www.pucsp.br/revistanures/normas.htm.

O Núcleo Religião e Sociedade da PUC-SP (Nures) é um grupo de pesquisa interdisciplinar que agrega pesquisadores de diversas universidades com o interesse comum pelo estudo da religião e das religiosidades nas suas fronteiras com a cultura, a economia, a saúde, a política, a história, o ambiente e a educação. Mais informações: www.pucsp.br/nures.

Tati





O amor é feito de plástico

20 08 2008

Mopho

(A F#m) 4x Bm Dm (A F#m) 2x Bm Dm

A F#m
A cada segundo
Bm D A F#m
Muda tanta coisa nesse mundo, oh baby
Bm D A A7
Será que devemos parar com isso?

D E A
Eu nada posso prometer
F#m Bm D A A7
Eu só tenho uma garrafa e um doce no meu bolso
D E A
Mas, sei que você também quer
F#m Bm
Entrar numa de se desligar
D A F E
O amor é feito de plástico

A F#m
Não tenho medo
Bm D A F#m
Já cruzei a linha de chegada, oh darling
Bm D A A7
Saiba que é no fim onde tudo começa

D E A
Eu nada posso prometer
F#m Bm D A A7
Eu só tenho uma garrafa e um doce no meu bolso
D E A
Mas, sei que você também quer
F#m Bm
Entrar numa de se desligar
D A F E
O amor é feito de plástico

(A F#m) 2x Bm Dm A A7

D E A
Eu nada posso prometer
F#m Bm D A A7
Eu só tenho uma garrafa e um doce no meu bolso
D E A
Mas, sei que você também quer
F#m Bm
Entrar numa de se desligar
D A F E
O amor é feito de plástico

(A F E) 3x

-

Tati