A divina comédia


Terminei ontem de ler “A divina comédia dos Mutantes”, de Carlos Calado. E estou com dor no coração até agora. Escrito em 1995, o livro termina tão melancólico, que você fica lendo até a última página para saber se não tem algo a mais. Na época, o autor sonhava com uma possível volta dos Mutantes – o que aconteceu, pra nossa sorte, neste ano. E nem venham falar de “caça níqueis”, porque a volta foi honesta e deixou todos felizes.

O livro começa contando a história dos irmãos Dias Baptista, Cláudio, Arnaldo e Sérgio. Cláudio era o “professor Pardal” do bairro e, futuramente, construiria os míticos aparelhos de som do grupo. Arnaldo dispensa apresentações: tomou a liderança e embarcou, desde cedo, na música. E Sérgio Dias era um pivete que ganhava de todos nos duelos de guitarra. Eles conheceram Rita Lee em um festival de bandas adolescentes. Arnaldo e Rita, desde cedo, foram namoradinhos.

Depois de apresentarem-se no programa do Ronnie Von, “O pequeno mundo de Ronnie Von”, foram batizados e conheceram Gilberto Gil – que os apresentou ao mundo da tropicália, com Caetano, Rogério Duprat, e outros. Eles eram o braço elétrico do tropicalismo – e, com o carisma do trio, foi fácil caminhar com as próprias pernas. Fizeram shows por todo o país, eram garotos-propaganda, participavam de inúmeros programas de tv. “Os Mutantes são demais!”, disse Caetano Veloso.

O engraçado é que o grupo se sustentava em cima da frágil relação amorosa de Arnaldo e Rita. Chegaram a se casar, mas rasgaram a certidão ao vivo no programa da Hebe. No auge hippie – quando Antônio Peticov lhes apresentou o ácido, em Paris, e eles se mudaram para a Cantareira – eles tomaram contato com o “amor livre”. E, a partir disso, a relação definitivamente se estremeceu.

Em Paris, os já cinco Mutantes no auge

Sempre doidões, e cada vez melhores instrumentistas, os Mutantes – aqui, Arnaldo, Sérgio, Dinho (bateirista) e Liminha (baixista) se dedicavam ao rock progressivo, mais complicado, com solos longos e complexos. Um dia, Sérgio encontrou Rita saindo com cara de choro da Cantareira. E ela disse “o Arnaldo disso que não tem mais espaço pra mim na banda”. Depois, foi o próprio Arnaldo que saiu, quando quis tocar de graça em um festival hippie em Minas. E esse foi o melancólico começo do fim.


Pronto, contei o livro inteiro. Mas essa história todo mundo conhece. Vale a pena ler porque ali estão detalhes da época, os costumes, as loucuras, os contatos. Tudo ali, e é uma delícia de ler. É um livro pra devorar e guardar na biblioteca.



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