Entrevista: Luís Carlos Maciel


17 de março, sábado fresco no Rio de Janeiro. Comemos uma feijoada e fomos direto ao Leblon, conversar com o Guru da Contracultura: Luiz Carlos Maciel. Já falamos bastante dele no blog: foi editor da Rolling Stone brasileira, colunista do Pasquim, hippie e intelectual.

Maciel nos recebeu sorridente e abriu o apartamento cheio de livros, quadros e mobília antiga. Sentou na poltrona, ligamos o gravador e ele disse:

– Não quero que vocês interpretem como má vontade, mas eu não tenho muita coisa pra dizer, não! Acho que vai ser meio decepcionante, eu penso que pô, as meninas vão achar que eu tô de sacanagem!

Que modéstia, Maciel! Foi mais de uma hora de gravação, initerrupta. Ele passou sua impressão madura, de trinta anos depois, dos conceitos que foram abordados em “De volta para o futuro”.

Ele começou falando da contracultura…
“Por causa da guerra do Vietnã, uma das manifestações mais dramáticas era a queima de certificados militares. Os rapazes da época queimavam seus certificados de alistamento militar e conseqüentemente se tornavam marginais. Foi dessa marginalização que cresceu o movimento hippie, porque eles viraram hippies, fantasiados, usavam aquelas roupas coloridas, deixavam o cabelo crescer, passavam a fumar maconha o tempo inteiro, tomavam ácido de vez em quando e começou essa chamada contracultura.

Havia uma indignação contra o sistema, contra o mundo organizado que parecia uma organização louca, que destinava a criar guerra, a matar gente e adoecer as pessoas, transformar o homem comum, careta, o homem médio em neurótico que só servia para enriquecer os consultórios dos psicanalistas e coisas semelhantes, então começaram a fazer um tipo de manifestação cultural que procurava fugir dos parâmetros, ser uma coisa contra, uma coisa que a imprensa chamou então de contracultural, eu falo pelos cotovelos, né? Não sei nem o que você me perguntou (risos)”.

Depois, falou da valorização do louco…
“A maioria dos meus melhores amigos foram internados. Em culturas primitivas a realidade imediata não era tão estratificada, absoluta, como é na nossa cultura, é uma possibilidade, a realidade tinha infinitas possibilidades. Essa fronteira entre o mago, o iluminado e o louco é meio imprecisa, então a contracultura valorizou até muito o louco.

Muitas pessoas que participaram da contra cultura acabaram em hospícios mesmo, foram internados. Uma das coisas que determinavam esses internamentos era uma substância que foi fundamental na contracultura, foi de uma importância radical, que foi depois sufocada pelo sistema, que foi o ácido de dietilamida, o famoso LSD ou ácido para os íntimos.

A pessoa tinha certeza de que estava experimentando uma expansão da consciência, pode-se dizer que era uma ilusão, mas eu por exemplo não acho que era uma ilusão. Eu sei que quando eu estava viajando de ácido, eu tinha um conhecimento muito mais amplo da realidade do que eu tenho agora nesse momento, eu sei que minha consciência agora está contraída em relação a como minha consciência se encontrava durante essas experiências. Essas experiências com ácido eram muito reveladoras, as pessoas se sentiam oprimidas até mudar sua maneira de viver e de ver as coisas, isso tudo em graus diferentes e modalidades diferentes conforme os indivíduos, tem uns que descobriram que o dinheiro é o mal da humanidade, e é!


Isso é uma coisa indiscutível, todos os louvores são feitos em nome do dinheiro, você não pode condenar o dinheiro, porque na nossa cultura ele é mais sagrado que Deus. Todo mundo aceita o dinheiro como se ele fosse parte da realidade natural, como se fosse o sol, feito a lua, as estrelas, o mar e o dinheiro. O ser humano e o dinheiro são as coisas intocáveis, então o cara toma ácido e ele acha que descobre que esse Deus intocável é um fetiche, é uma sacanagem que foi criada pelo próprio homem, então ele chegava e pegava todo dinheiro que tinha no bolso e rasgava, queimava, louco! E quem rasga dinheiro é louco! Então já logo internava, já dava uns choques,pra ele botar os pés no chão, né?

Quem estivesse no estilo de vida da contracultura ou psicodélica saía para se divertir e era considerado maluco, não havia diferença, maluco, tinha enlouquecido, pirou! E o termo para classificar essas pessoas era esse, doidão, muito doido e que nas internas viravam um elogio, ‘fulano muito doido’ quer dizer grande sujeito, ótimo sujeito, você tem que conhecer porque ele é muito doido”.

E a Madalena?
“A viagem de ácido revelava aos rapazes a sua porção feminina,vamos dizer assim… a mulher que tem dentro deles e nas moças a sua porção masculina, o homem que tem dentro delas, se tivessem já uma certa tendência, pronto! Aaah, então diziam assim, ‘ah, esses meninos tomam ácido viram bichas, viram bichas porque eles queriam ser bichas’. Mas estavam reprimidos, não ouviam as coisas direito e aí o ácido revela, outros não, outros viam sua parte feminina, viam que isso só enriquecia a personalidade deles, mas não os tornavam homossexuais necessariamente.

Tinha aparecido no mercado clandestino um ácido verdinho, então o mito era que os caras do Yes tinham tomado o ácido para fazer aquele disco e por isso que tinham feito a capa verde. O ácido era verde e tinha uns nomes pitorescos, esse era o green não-sei-o-que. Era um ácido particularmente forte, muito forte mesmo e eu… Bom isso não posso contar.

Ahhhh pode!!!

Não vou contar porque seria mal interpretado!

Imagina, hahahahahahaha

Eu tomei esse ácido! Na primeira batida do ácido, a mais forte, eu fiquei completamente desentendido, não sabia aonde eu estava e nem quem eu era, me deu uma baixada mais ou menos eu me recuperei, olhei para minha mulher na época e disse assim: “meu nome é Madalena”. Aí ficaram me sacaneando sempre, diziam: “quero falar com a Madalena!”. Mas nem pintou a Madalena, e não fiquei homo por causa disso não!

– Foi só uma expansão de consciência!

Uma expansão de consciência! Disse bem! Agora você já está entendendo, só tá faltando tomar acido agora também, para saber como é que é na pratica”.

– …

As comunidades hippies: para onde foram os outsiders

“Eu conheci algumas e tudo, tinha uma que eu visitava sempre aqui no Rio de Janeiro, mas nunca morei em comunidade não! O negócio da contracultura, de viver em comunidade, eram todos os desgarrados de família que se juntavam. Também se juntava os tipos mais heterogêneos, né? Então podia acontecer de tudo, era muito difícil, se pra dois viverem juntos já era difícil, imagina uma cambada de gente. E até as coisas como amor livre e etc, acabavam virando briga porque o famoso problema do ciúme não foi superado, nunca vi ser superado, sempre diziam “ahhh não tenho ciúme”, e tinha, e acabavam brigando.

– Você acha que aqui no Brasil pela nossa cultura latina, machista foi diferente da realidade americana?

Não sei, talvez aqui as perturbações tenham sido mais graves.

E pra onde foram essas pessoas?

Existem comunidades hippies até hoje no interior. Outro dia veio um rapaz aqui que tem um centro cultural em Vargem Grande aqui no Rio de Janeiro. Mas é muito difícil manter isso, as comunidades rurais em que as pessoas saem fora do mundo e criam seu próprio mundo. Algumas existem até hoje e os outros cortaram o cabelo, como eu, e ficam fingindo que um dia brigou com todo mundo, mas é um fingimento estratégico, porque você sabe que o maluco tem que enganar os caretas de que ele é careta também, porque senão ele está se arriscando demais, pode ser internado, pode ser choque, pode às vezes ser preso até, ser espancado então o maluco esperto passa por careta.

Até aí, foram só uns 20 minutos de conversa. Logo mais, o resto da entrevista.


One Comment on “Entrevista: Luís Carlos Maciel”

  1. Helena disse:

    Cadê o restante da Entrevista………..já faz muito tempo e nada. Estou no aguardo,
    bjs.


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