Jorge Mautner!

De uma entrevista para o programa Roda Viva, em 2000:

Paulo Markun: O que o kaos com K tem que o caos com C não tem?

Jorge Mautner: O caos com C é de uma fácil definição: é o conflito de agora, é uma briga. Por exemplo: Eu estou com raiva daquele cara, eu dou na cara dele, mato ele. E, para transcender isso, se criou as Olimpíadas. Então é o boxe, sem matar. Ou então, as disputas, ao invés de ser na faca, mesmo, como os Estados da China. Os Estados beligerantes, ao invés de entrarem em guerra civil mesmo, eles falam: “Não, vamos começar a disputar em torno de festivais, em torno de disputas poéticas.” É o “alevantamento” da condição da tragédia, da comédia humana, em termos de cultura. É o predomínio da cultura. Aliás… Agora, a atualidade do kaos é tremenda. Porque antes desse kaos, por exemplo, os pré-socráticos [como são chamados os filósofos gregos antes de Sócrates, este do século V a.C.] eram kaóticos; o budismo, o budismo zen, toda a cabala, o surrealismo, o modernismo, a fenomenologia. Mas é a primeira vez que esse kaos impera na ciência, na matemática. Então, isso é que é fantástico. Por isso mesmo, há uma dificuldade ideológica. Por exemplo, eu sou antevisor dessa época, porque eu já colocava – por exemplo, uma página de O deus da chuva e da morte [publicado em 1962] é de extrema esquerda, a outra página de extrema direita, a terceira é de extremo centro, e uma anula a outra, criando uma nova situação, que é isso aí, que eu chamo de uma Quarta Dimensão, que é o mundo em que nos encontramos. Por isso, ainda não fui decifrado, minha obra é enigmática. E, quando me perguntam: “Quando você escreveu O deus da chuva e da morte?, eu digo: [olhando para a câmera] “Depois de amanhã.” [gargalha] Mas tem outras coisas, que é a proclamação do Brasil como a cultura mais importante…

Maria Amélia Rocha Lopes: Mautner…

Jorge Mautner: Por favor.

Maria Amélia Rocha Lopes: Dois, três minutos de conversa e você já falou em Dostoievsky, Sartre, Sócrates. Agora, você é um sujeito muito culto, a sua obra é toda marcada pela sua imensa cultura que você tem. Agora, como é que um sujeito assim vê a cultura brasileira hoje, principalmente a música, que está muito mais na derriére [isto é, nas nádegas; referência às coreografias sensuais como as do grupo É o Tchan] do que na cabeça, né?

Jorge Mautner: Ó: na Quarta Dimensão, você tem, cada coisa tem várias opiniões. A música brasileira, eu acho que vai bem no sentido de que é a grande herança do Tropicalismo. Claro que nós estamos numa época em que… O Konrad Lorenz [(1903-1989), fundador da etologia, o estudo do comportamento dos animais] dizia que nós iríamos entrar num período de decadência cultural no mínimo de três séculos. Eu não sou pessimista, eu não acho também que é decadência cultural. Mas é que houve uma raridade: na década de 60 a 70, foi a primeira vez em que poesia sofisticada virou letra, certo? O Jimmi Hendrix, Bob Dylan, Rolling Stones, no mundo todo; aqui, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil [palavra inaudível] e, de repente, pela própria massificação… Porque a história humana, ela é atropelada pelas invenções, são as invenções que determinam tudo.

Aqui.

Tati



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