Ave Sangria

O Ave Sangria, assim como Lula Côrtes, era uma das bandas pertencentes ao movimento Udigrudi nordestino.

Este é um cartaz de uma das apresentações da banda. O carimbo revela a data: 29/12/1974

 

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Dois navegantes

Dois Navegantes
Composição: Ave Sangria

Gm – Gm7 – Gm7 – Gm7
D – D7 – D7 – D7

G#m
Aqui estamos juntos ao pôr-do-sol, dois navegantes
G#m
No mesmo barco
G#
Aqui estamos sós ao pôr-do-sol, andando lado a lado
G#m Cm D
No mesmo mar, ah

Bb F D
Não deixes a vela apagar, nem o mastro cair, nem a corda prender
Bb F D
Só deixes que o vento que solta teus cabelos, espelho dos meus
Bb F D
Te soprar e soprar em mim
G#m F C
Pra depois deslizar em ti, oh…
D
Deslizar em mim, oh…

Tati


Entrevista com Marco Polo

Esta não fomos nós que fizemos, mas uma boa alma entrevistou Marco Polo, ex-vocalista e compositor excepcional do Ave Sangria, e botou na net em vídeo. Ele fala sobre o Ave e conta mais ou menos as mesmas histórias (de forma bem mais sucinta, é claro). Vale a pena!

Tati


Trechos, pareceres e outras formas psicodélicas de escrever

Bueno, estamos na reta final final do final do finalzinho MESMO.  Cinco capítulos já foram revisados e entregues para a diagramação, feita pelo GRAAAAAAAAANDE Thiago – que tem quebrado um galho gigantesco, afinal, lidar com três meninas loucas sem a menor noção de gráfica, impressão, diagramação e afins não é fácil.

Estamos tentando marcar um dia com o calanca para poder fotografar direito as capas dos discos que vamos citar no livro.

Também já começamos a correr atrás de avaliadores pra banca. Até agora, pensamos em Carlos Calado e Fábio Massari… espero que aceitem…

Mas, o bom é que tá tudo liiiiiiiiiindo, como diria Caetano. E pra aproveitar os dizeres alheios, como enfatizaria Lanny Gordin: Mais um dia.

UFA!

Para instigar os que curtem nosso trabalho… aqui seguem alguns trechos dos capítulos prontos:

Introdução

Imagine uma sociedade cinzenta. Nessa sociedade, havia um oásis colorido. Pense em paz, amor, Woodstock, Monterey, guitarras de Hendrix, tons de Joplin, Greatful Dead, The Mamas & The Papas, Ravi Shankar, Steppenwolf, Beatles, Rolling Stones.  Adcione pitadas de excentricidade brasileira: batons vermelhos, roupas berrantes, cores. Flores. Muitas flores. Punhados de lisergia, cogumelos, peiote, LSD, maconha, jurema, ayhuasca. Cabelos compridos, barbas mal feitas, pensamentos indomáveis, repressão, Carlos Castañeda, ditadura, Thimoty Leary.  Jeans desbotados, bordados, roupas usadas, batas indianas, vestidos e saias compridas, tecidos naturais. Cheiro de Patchouli.

Misture com liberdade em grandes doses. Muita liberdade. Encha a mão, não tenha medo, porque esta, além de dar gosto, dita o caminho. Aproveite os tão renegados instrumentos elétricos e coloque junto alguns batuques e tambores afro, sanfonas, triângulos e tudo que lhe parecer interessante da cultura tupiniquim. Embarque na levada da Tropicália e siga sempre rumo à inovação. Contra o arroz e feijão, a macrobiótica. Plantações de inhames devem vir antes dos enlatados.

Não simplifique! Arranjos em quatro por quatro não são bons sinais. Ouse. Invente. Transgrida. Por que não um sete por três? O impossível não existe. Solos de guitarra, baixo, bateria, flauta, zabumba, cítara, que passem dos dez minutos levarão o público à loucura. O negócio não é ser pop, mas sim criar um novo jeito de tocar. Junte todas as tribos – hippies, cocotas, caretas, desbundados – este último em maior escala. Religiões orientais podem dar um tempero extra. Transcenda-se.

Pense nisso tudo concentrado, feito em acetato e tomando forma de vinil. Deixe maturando por pelo menos trinta anos, até uma nova geração resgatar o bololô e exigir explicações para tentar entender o que saiu dali. As boas histórias são o que valem e as lembranças dessa época brilhante e colorida ficarão gravadas para sempre. Agora em forma de livro.

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Módulo 1000

Em um show em Brasília, em 1972, tudo corria como de costume. Os garotos subiram no palco, tocaram, foram bem recebidos, até começarem os primeiros acordes de “Turpe est…”. Imediatamente subiram quatro homens vestidos com ternos pretos, óculos escuros, e começaram a desligar os cabos dos instrumentos no meio da apresentação. Levaram a banda para  a direção de um carro. Fizeram-nos entrar. “A única coisa que eu pensei nesse momento é que iria morrer. Adeus, mamãe; adeus, papai; adeus, maninha; adeus, Zepelim – meu rato de estimação”, brinca Romani. Ficaram todos dentro de uma salinha enquanto os homens da censura perguntavam qual era a mensagem subversiva contida naquela música. Em certo ponto perceberam que os meninos diziam a verdade e que, o único fato em questão, era o de que eles acabaram de pagar um grande mico. Liberaram o Módulo 1000. Hoje, uns lembram-se do causo enquanto outros juram que ele não aconteceu.

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Nordeste

A I Feira Experimental de Música do Nordeste, que aconteceu em onze de novembro de 1972, reuniu a “juventude prafrentex” de Recife. O “Woodstock cabra da peste” não deixou nada a dever para o original californiano: lendas dão conta que a platéia divertia-se tomando ácido dissolvido em baldes de Q-suco. Foi entre aquele “pôr e nascer do sol” que subiu ao palco uma recém-formada banda, ainda sem nome, composta por jovens músicos da periferia do Recife.

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Ronnie Von

Na mídia, o fracasso retumbou. À época do lançamento, apenas dois jornais – “malucos”, diria o cantor – deram aval positivo à pérola psicodélica. O Jornal do Brasil, no Rio, com a manchete “A que veio Ronnie Von” e o Estado de S. Paulo, com duas páginas sob o título “Ronnie, esse desconhecido”. O resto “descia o pau”.  “Eu me senti, assim, um ladrão da gravadora. ‘Pegou o dinheiro e jogou fora’. Eu era profundamente perseguido por muita gente, era uma coisa sistemática. Tinha um jornalista, não me lembro o nome, que escrevia vinte notícias: dezenove de futebol e uma era sempre ‘Ronnie Von é homossexual’, ‘Ronnie Von é ladrão’, ‘Ronnie Von é não sei o que’”, desabafa. E o fracasso refletiu na auto-estima já abalada do não mais “Pequeno Príncipe”.

***

Serguei

Serguei chocava com sua posição andrógena anos antes de Ney Matogrosso surgir com os Secos e Molhados. “Hoje se fala muito em Marylin Manson. Eu já era Marylin Manson antes de Marylin Manson existir!”, compara, fazendo questão de lembrar que foi um dos primeiros a usar interlace (técnica de entrelaçamento de fios para fixar perucas) no país e que adotou de vez as flores como acessórios quando Rita Lee um dia as colocou em seus cabelos. “Fica tão bem em você”, disse na ocasião a vocalista dos Mutantes, grupo “altamente psicodélico”, segundo ele. “Rita Lee é a rainha do rock no Brasil. Pode gravar até disco music, não tem problema, coração. Ela tem um toque de Midas do rock’n’roll, onde bota o dedo vira rock”, derrete-se.

***

Som Imaginário 

Nessa época, Zé Rodrix e Tavito moravam juntos, em uma espécie de comunidade com o guitarrista Marco Antônio Araújo. O trio constituía a “Família Matadouro”, devido à enorme quantidade de mocinhas arrebatadas por eles. Funcionavam como um relógio: os músicos dormiam das 6h às 10h da manhã, iam à praia, em Copacabana; voltavam da praia, normalmente com uma garota, e dormiam até as 18h. Acordavam, tomavam banho e iam para os shows, e depois seguiam para o Sachinhas, de onde só saíam às 6h da manhã. Em casa, só andavam nus. Para ter algum controle, penduravam avisos como “nesta cama é proibido trepar”. Às vezes, doidões, passavam o dia todo desenhando. E sempre esqueciam de pagar a conta de luz. Um dia, tomaram um ácido e a luz foi cortada; acenderam um lampião e ficou a família toda viajando ao som de The Band. Em outra ocasião, foram fazer turnê em BH por uma semana. Na volta, quando eles chegaram no hall do apartamento, deram de cara com uma desagradável surpresa. “Quando a gente olha, tinha vermes saindo pela porta. Uma trilha que ia até a geladeira. Tinha acabado a luz e na geladeira apodreceu bife, carne”, lembra Zé Rodrix.

Aline


Psicodelia nordestina, em 2007

 Lula Côrtes e Marco Polo. Discurso captado pelo gravador de Ana Paula em Recife.

Lula: Agora é agora, o tempo não espera por ninguém, não para.

Marco: Essa está no grupo de frases fantásticas, o tempo não espera por ninguém, o tempo não para.

Lula: Não espera mesmo, nem retroage. O máximo que a gente pode ter são boas lembranças. Eu fui andando com tudo que veio atrás, está acumulado de tudo aquilo, é impossível você olhar mesma árvore, porque ele não franze…

Marco: Você não olha nunca a mesma arvora. È outra árvore.

Lula: É outra?

Marco: Não tem jeito. (todos riem)

Lula: Nada, nada previsível. (continuam rindo)

Marco: Eu gosto desse doido, para caramba. (todos riem) Eu amo esse homem.

Tati


Paulo Rafael

Semana retrasada, fomos entrevistar Paulo Rafael, ex-guitarrista do Ave Sangria que toca com Alceu Valença até hoje. Foi um sufoco. Ele estava aqui para uma Feira de Música e ia passar só um dia em São Paulo. a entrevista aconteceria na qarta a noite, único horário que ele (e nós) tínhamos livre.

É claro que nosso professor de Ética Jornalística não nos deixou sair mais cedo da aula (mesmo que ele não tenha dado nenhuma matéria naquele dia, só entregado as notas).  Certas políticas da Cásper e seus professores são inacreditáveis. Mas, beleza. O Paulo Rafael, extremamente gentil, topou fazer a entrevista às 23h de uma quarta feira.

Como foi tudo de última hora, estávamos sem máquina e não tiramos foto. Mas foi ótima a entrevista. Paulo Rafael é simpaticíssimo, o amigo dele que nos abriu a porta de casa para a entrevisat também, tudo ótimo. Saímos de lá meia noite e meia com histórias ótimas.

Alguns trechinhos:

Quando eu entrei (na banda), o troço mudou. Eu entrando de algum jeito parecia que…. não sei se era o clima, se eu ia conduzir isso de uma maneira… Porque o Marco Polo é quem me incentivava a fazer isso, avalizava. Ele me conduzia, ele bem mais velho do que eu. Então, essa coisa que eu pensei, por exemplo de transformar em uma coisa mais palpável, menos esquisita do que era, menos sofrida. Acho que a história pra trás tinha sido muito batalhada, muito cheia de dificuldades. E aparentemente foi, fizemos esse show que era da porra, as músicas começaram a desenrolar, veio o disco, de repente, pooof”.

“Ao mesmo tempo em que a gente tinha uma disciplina muito grande, a gente era muuuito louco. A disposicão pra pular de abismo era ‘bora? Bora’.  Vai todo mundo. Ninguém tinha medo. Não tinha medo de correr risco”.

“Eu acho que o Marco Polo cantava de uma maneira muito especial, eu levei muito tempo pra entender isso. Depois eu vi o jeito de interpretar, que é tão peculiar, que até hoje quando eu ouço assim eu digo: cara como é lindo. Pra mim é bonito pra caralho, tem uma mágica ali,  ele canta com uma fragilidade, como se não soubesse cantar mais tá cantando, sabe como é?”.

“(O Israel, baterista, que suicidou-se anos mais tarde) era muito louco,  bebia muito. Ele era muito bom baterista, e compunha umas musicas muito loucas. Eu fiquei  muito junto com ele, a gente fico muito amigo, e ele morava num lugar lá e não tinha grana pra nada, e eu levava ele em casa pra ele pra comer, senão ele ia morrer de fome”.

No final da banda:

Eu fiquei no Rio de janeiro, dentro de uma kitinete pensando, porra, o que foi, meu deus do céu. A gente foi atropelado. Um trem passou na frente da gente.
Era sensacional. Era uma banda sensacional. Tinha, porra, muito talento, muitas idéias, as pessoas tinham muito pique. Tem músicas maravilhosas, nunca esqueci. Mas, foi, não deu. Ma minha imagem é de uma coisa muito fantástica, muito boa. Eu guardo o Ave Sangria como uma coisa assim, porra, foi … pra mim foi a hora que fez assim. E pronto”.

Paulo Rafael, além de tocar com Alceu até hoje, é produtor musical e planeja lançar um disco em breve. Conheça o trabalho dele: www.myspace.com/paulorafaelguitar

Tati


Perfumes y Baratchos

O Ave Sangria estourou em Recife depois da temporada do show Perfumes y Baratchos, no Teatro Santa Isabel. Nesse cartaz, “Prepare-se que seu coração vai sangrar”, era anunciado o último show da banda, no final de 1974. O desenho do cartaz é de Laílson, e era semelhante ao que ele fez para a capa do disco – destaque para o carimbo da “censura estética”, a que todos trabalhos eram submetidos.

Originalmente, o desenho da capa, como ele mesmo explica, era uma “ave/mulher semelhante à do cartaz, só que menos feroz, e ela estava pousando numa caatinga psicodélica onde a luz da lua colocava tons de prata. Era um desenho em guache e tinta prateada no tamanho da arte-final para a capa”.

Mas o curioso é que, no final, a gravadora Continental não quis pagar os direitos pelo desenho da capa e chamou um artista para recriar a obra de Laílson. E mais: segundo conta o próprio, o original nunca foi devolvivo. “Colocaram na contracapa a frase ‘Layout Laílson de Holanda Cavalcanti’ e ponto final. Muuuita cara de pau, né não?”, desabafa.

O resultado final ficou assim – definido pelos integrantes da banda como um “papagaio drag queen”:

Tati