Ave Sangria

O Ave Sangria, assim como Lula Côrtes, era uma das bandas pertencentes ao movimento Udigrudi nordestino.

Este é um cartaz de uma das apresentações da banda. O carimbo revela a data: 29/12/1974

 


Modulo 1000

Módulo 1000 – Psicodelia do Rio de Janeiro (Quem tiver esse vinil pra vender… avisa?)


Lembranças de Lula

Semana passada fomos bombardeadas com a notícia da morte de Lula Côrtes. Em um trabalho sobre a psicodelia, é claro que ele não poderia ficar de fora e dedicamos um capítulo inteiro a ele e seus conterrâneos do Udigrudi.

Udigrudi, de “underground”, era a cena alternativa nordestina e foi dentro deste cenário que Lula brilhou. Como muita gente sabe, uma de suas parcerias, para ser mais exata com Zé Ramalho, resultou em disco – o Paêbiru (1975) – que é hoje tido como relíquia, um dos álbuns, senão “o” álbum, mais caros do país.

Mas não foi só neste disco que ele mostrou seu talento. Satwa (anterior ao Paebiru, de 1973), ao lado de Laílson, é instrumental e como diz na contracapa, suas canções são “produtos mágicos das mentes e dedos de Lailson e Lula”.

Como publicou Fernando Rosa, o Senhor F, “o som predominante do disco, no entanto, é um folk nordestino/oriental, resultado da mistura da cítara popular tocada por Lula, e da viola de 12 cordas de Lailson. Algo como uma sucessão de ragas ou mantras, interpretadas por Cego Aderaldo movido a incenso, cogumelos e outros ‘expansores da musculatura mental’, como diz Arnaldo Baptista”.

(Rosa de Sangue, outro disco, é de 1980)

Entrevistar Lula foi, sem dúvida, uma honra e para homenageá-lo do jeito que podemos, um trecho do livro, com uma das histórias que ele contou, em que foi preso e acabou bebendo cerveja com os policias que o prenderam. Brincando, ele revela um lado mais sério e fala sobre a censura e o preconceito para com os artistas daquela época.

PS> Há um projeto de relançamento do catálogo da Rozenblit (gravadora pernambucana que lançou os discos de Lula). Vamos torcer!

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Para o artista Lula Côrtes, o mais grave era que os censores eram garotos do interior que se alistavam e não tinham o menor embasamento cultural para classificar nada. “Você ia preso por causa de palavras como desbunde, isso é palavra que existe no dicionário, mas acho que ele relacionou com bunda ou com alguma coisa pornográfica”, lembra. Marco Polo chegou a se aproximar de uma censora, que não entendia as tiradas do letrista: “Era uma senhora até assim simpática, gente fina, ficou minha amiga e tudo. E ela não percebia que eu estava curtindo com a cara dela de tão imbecil que ela era”.

Uma vez, os integrantes do Ave Sangria foram todos presos, acusados de estarem com drogas. Naquele dia, porém, não tinham nada – mesmo assim, só conseguiram sair da delegacia de madrugada. Uma noite, durante um show no elegante Teatro Santa Isabel, Marco Polo pediu à platéia “alguém tem um cigarro aí?”. Lula Côrtes, sentado na beira do palco, atendeu ao pedido. O vocalista tragou com gosto, e a platéia foi abaixo, pensando que era maconha. Marco tranqüilizou: “é palha”. No dia seguinte, foi acordado pela Polícia Federal em sua casa. O policial:

– Marco Polo, vá lá contar que você estava incitando a juventude a fumar maconha.

– Como é que é, bicho?

Marco foi à delegacia e tentou se explicar:

– Não, é o seguinte, estava Lula Côrtes lá, eu pedi um cigarro, ele me deu um cigarro de palha.

Tudo bem. Já saindo, Marco desafiou:

– Mas eu já fumei maconha.

– Epa, espera aí, como é que é?

– Fumei maconha em São Paulo, quando era jornalista do Jornal da Tarde. Um major da Polícia Militar levou maconha pra gente conhecer o cheiro –, caçoou. E foi embora.

A patrulha ideológica em Recife era tão forte que Almir de Oliveira ia armado à faculdade de engenharia, onde estudavam muitos militares que ficavam caçoando do hippie cabeludo. Um dia, juntou-se um grupo: “hoje é dia de cortar o cabelo e dar um banho no hippie!”. Almir tirou o “canhão”, como chama, da bolsa: “Os militares disseram ‘não, não, a gente está brincando’, eu disse ‘mas eu não estou, não’”. Almir acabou largando a faculdade naquele período.

Toda aquela geração produtiva pernambucana foi atingida pela repressão. Desde os tempos da Feira Experimental de Música, Lula Côrtes firmou-se como um guru da cena. Foi parar na cadeia inúmeras vezes. Em uma noite, em um show na Paraíba, o produtor garantiu a Lula que os policiais presentes “eram legais”. Dali a pouco, entra o policial. Lula acabou preso, nu, segurando a bandeja uma bandeja. Numa outra vez, foi detido e, enquanto esperava o camburão, acabou bêbado, de algemas, tomando cerveja com os policiais que o prenderam. Bem menos divertido foi o período em que passou vinte dias em um quartel, preso por visitar um amigo guerrilheiro. A polícia federal o levou de sua casa, encapuzado. Nos primeiros três dias de prisão, foi torturado. Depois, ficou mais de duas semanas em uma solitária, escura, ouvindo choros e gritos. Estava enlouquecendo sem falar com ninguém. Um dia, passou um rapaz em frente à cela.

E Lula:

– Arranja uma coisa para eu ler, pode ser Pato Donald, Recruta Zero, qualquer coisa!

E o menino:

– Tu sabe porque que está aqui?

– Não.

– É porque tu leu demais.

Naquele período, o músico pensou que seria morto, convencido pela tortura psicológica dos policiais. Até que foi jogado com os outros prisioneiros, todos encapuzados, no camburão. Rodaram por horas no calor. Sem saber o que estava acontecendo direito e sem enxergar, Lula lembra que o carro ia parando e os presos iam sendo colocados para fora, um a um, às porradas: “Batia no cara, o cara gritava, eles atiravam, depois diziam ‘vamos embora’”. E os que iam sobrando no camburão ficavam apavorados, chorando, pedindo clemência. Chegou a vez de Lula: deram-lhe uma porrada na testa e o largaram, encapuzado e desmaiado, na frente de sua casa. “Eu acordei de madrugada com o povo em volta de mim falando, ‘o que é isso?’, ‘deve ser comunista’”, lembra o artista, que ficou estirado no chão, sem enxergar, até que um dos presentes sugeriu que lhe tirassem o saco da cabeça. “Esse foi o dia mais torturoso, o dia mais comprido da minha vida. Você fica descompensado depois”.


Estamos no twitter

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Estamos de volta!

Depois de três longos anos de recesso, é com muito amor que anunciamos que estamos de volta!

Nosso TCC foi aprovado com nota máxima, mas não conseguimos lançá-lo como livro (ainda).

Ficamos muito felizes com o resultado deste trabalho e acreditamos ser um desperdício manter este material inédito – informação boa é aquela que atinge o maior número de pessoas.

Sendo assim, a partir de hoje publicaremos trechos do livro já pronto, entrevistas que guardamos com o maior carinho, áudios e fotos exclusivas e o que mais tivermos guardado na gaveta.

Para começar, um desenho de Laílson de Holanda Cavalcanti, gentilmente cedido por ele, e escolhido por nós como capa do nosso projeto.

“Por trás de tudo, a realidade”

 

PS> o blog está desconfigurado, com tema genérico… aos poucos vamos arrumando!


Som Imaginário em ação

E não é que eles chegaram a gravar um programa Ensaio?

Incrível.


Paulicéia alternativa dos anos 70

“No início da década de 1970, eu praticava meditação em praça pública, mas não em qualquer uma. O parque Ibirapuera, dependendo do dia, era acolhedor para fazer ioga. Mas, como eu morava na fronteira entre Alto de Pinheiros e Pinheiros, escolhi a que hoje se chama praça do Pôr do Sol. Acho que teve um outro nome, mas fiquei feliz quando soube que o oficial ficou este, pois o grande show era, e continua sendo, o pôr do sol.

Lá perto, na Vila Madalena, eu alugava um estúdio com amigos artistas plásticos na rua Aspicuelta (quando ela tinha um pedaço sem saída) e dei as minhas primeiras aulas de ioga. Obviamente, não era esta Vila Madalena! Estava mais para um bairro do interior -um outro planeta sem bares, restaurantes ou livrarias.

Mas ser “alternativo”, “natureba” e praticante de ioga, naqueles tempos, era mais trabalhoso. Os restaurantes vegetarianos ou macrobióticos eram poucos. Se compararmos com hoje, pouquíssimos!

Tinha o restaurante Vegetariano Suíço da tia Lucia, bem grande, onde tudo era farto: saladas, sucos e a simpatia de uma senhora de uns 70 anos, típica suíça.”

Meu professor Sandro Bosco já era alternativo quando eu nem sonhava em nascer. E contou como era em uma crônica na Revista da Folha. Para ler o texto completo, clique aqui. (só assinantes).