Hippies

Oba, blog muito bom sobre o universo dos anos 60:

http://anos60.wordpress.com/

De cara já surrupiei um post que tem tudo a ver conosco, divirtam-se:

Os Hippies, junto com a Nova Esquerda e o Movimento dos Direitos Civis, são o tripé daquilo que ficou conhecido como Contracultura. A palavra ‘Hippies’, – de hip, hipsters, que vem de hep, que quer dizer, estar por dentro, descolado, bacana, – saiu na imprensa pela 1ª vez, no artigo “A New Haven For Beatniks”, em 5 de setembro de 1965, assinado pelo jornalista de San Francisco, CA., Michael Fallon. Nesse artigo ele escreve sobre o “Blue Unicorn”, um coffee house, usando o termo hippie para se referir à nova geração de beatniks que se mudaram de North Beach para Haight-Ashbury, distrito de S. Francisco. Mas tornou-se massificado pela mídia a partir de 1967, depois que o colunista Herb Caen, do “Crônica de S. Francisco”, passou a se referir a hippies, em suas colunas diárias. Segundo Malcolm X, a palavra hippy, que aparece na língua Wolof do oeste africano, tem reminiscências no fim dos anos 40 no Harlem e era usado para descrever um tipo específico de ‘branco’ que age de forma mais ‘negro’ que os negros. Porém, suas raízes remontam aos filósofos gregos Diógenes de Sinopes (e os Cínicos) e Epícuro de Samos.

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Diógenes de Sinopes ( 413 a.C. – Sinop, hoje na Turquia), é o maior representante do cinismo. Ele desprezava a opinião pública, e seus únicos bens eram um alforge, um bastão e uma tigela (que simbolizavam o desapego e a auto-suficiência perante o mundo). A felicidade, entendida como auto-domínio e liberdade espiritual, era a verdadeira realização de uma vida. Defendia a liberdade sexual total, a igualdade entre homens e mulheres, a supressão das armas e da moeda, entre outras coisas.

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Epícuro de Samos (341 a.C. – Atenas – discípulo de Diógenes), dizia que ser feliz era mais barato do que se pensa. Considerava que a busca da felicidade e do prazer estavam condicionadas ao domínio sobre as emoções e sobre si mesmo, e elegeu 3 questões principais frugais para alcançar a felicidade. 1. Amigos – não apenas tê-los, mas conviver com êles. Comprou uma grande casa, convidou um monte de amigos para morar juntos e assim, foi um precursor da vida em comunidade. 2. Liberdade pessoal – sem dependência de patrões cruéis. Independência em relação ao consumismo, e, 3. Auto-reflexão, encarar as questões que incomodam de frente, analisá-las com sinceridade e resolvê-las. Paradoxalmente, sofria de cálculos renais.

As influências também passam pelas idéias de Jesus Cristo, Buda, São Francisco de Assis, Krishna, Gandhi, Henry David Thoreau (Walden ou A Vida nos Bosques e Desobediência Civil), e outros. Em 1890, inspirados nas obras de Nietzche, Herman Hesse e Eduard Baltzer, jovens alemães iniciaram um movimento de volta à natureza, abandonando seus status sociais e buscando valores espirituais pagãos que tinham raízes em seus ancestrais. Com a imigração alemã para solo norte americano, décadas depois, surgiu a 1ª loja de produtos naturais, mais saudáveis, no sudoeste da Califórnia, onde puderam praticar um estilo de vida mais alternativo em um clima mais ameno. Jovens americanos influenciados por esse estilo de vida criaram um grupo chamado “Nature Boys” e se fixaram no deserto californiano. Esse movimento tornou-se popular em 1947 quando Nat King Cole gravou uma canção “Nature Boy” * (que é linda, vale a pena ouvir), de autoria de um dos integrantes do grupo, Eden Ahbez. Remanescentes desse grupo, incluindo o famoso Gipsy Boots, foram para o Norte da Califórnia em 1967, bem à época do Verão do Amor, San Francisco. Também o movimento jamaicano Rastafari, propunha volta à natureza e volta às raízes filosóficas africanas. Na década de 50, por causa da imigração em larga escala de jamaicanos para a Inglaterra, influenciou o desenvolvimento do movimento hippie inglês com contatos que permitiam aos jovens brancos comprar cannabis das comunidades negras.

O Verão do Amor, 1967, em S. Francisco, a capital dos hippies, foi um evento que atraiu 200.000 pessoas e um consumo inacreditável de LSD. Allen Guinsberg (”Uivo”), Jack Kerouac, (”Pé na Estrada”), os ‘beats’ novaiorquinos entre outros, chegaram a S. Francisco, onde criaram um reduto inicialmente em North Beach. “Se você for a S. Francisco, não deixe de colocar flores em seus cabelos”, dizia a canção de John Phillips, dos Mamas and The Papas, cantada por Scott Mackenzie.

Conceitos como paz, amor, liberdade sexual, maconha, LSD, underground e contracultura, começaram a antagonizar aos da Guerra do Vietnã, materialismo, consumismo, individualismo. Emergiam novos e urgentes referenciais. Os hippies eram básicamente contestadores, isso fruto de educação mais liberal, o que estimulava uma maior capacidade de expressão crítica, de se colocar diante de fatos como poluição atmosférica, questão ambiental, racismo, pobreza, o estilo dos pais, o consumismo exagerado. Contra o stablishment, os valores da classe média, armas nucleares (principalmente na Inglaterra), a Guerra do Vietnã (principalmente nos EUA), políticas ortodoxas, Nixon, ultra direita, doutrinação ideológica. A favor do paganismo, religiões e filosofias orientais, liberação sexual, LSD, expansão de consciência, vida em comunidades, paz, amor liberdade pessoal.

Essa era a cena hippie. Básicamente sairam do campo para a cidade e lá, pregavam o contato com a natureza e a volta para o campo, ao mundo caipira, que não gostavam dos hippies. Caipiras gostavam de música country, Willie Nelson ou até de Bob Dylan e Joan Baez. Nos anos 60 o folk foi eletrificado (Byrds, com influência Beatles e Dylan). A cultura hippie era mais comportamental que musical, mas influenciaram caipiras, folks, beats, Beatles e outros na Inglaterra e Europa que influenciaram sua contrapartida norteamericana e na fusão de rock, folk, blues e rock psicodélico. Cabelos e barbas compridos, eram considerados ofensivos para quem não estava associado à contracultura. A língua oficial era o rock. E mesmo sendo o movimento caracterizado pela busca do prazer, não arregavam diante da opressão e das injustiças sociais. A “festa” começou com uma comunidade urbana que se chamava The Family Dog, que organizaram o primeiro baile de rock na cidade, em 16 de outubro de 1965, no Longshoreman’s Hall, animados por 4 bandas locais. Depois disso, o point mais quente migrou de North Beach para a área em volta da esquina da Haight com Ashbury, um reduto negro que foi redecorado com cores psicodélicas, artigos orientais, muito incenso e óbviamente, muito LSD.

Vida comunitária, amor livre, culto à natureza, religiões orientais, astrologia, tarô. Nascia o psicodelismo.  The Family Dog acabou em 1966, e os bailes passaram a ser organizados por Bill Graham, dono do Filmore Auditorium, que viria a ser o templo do rock dos anos 60; e por Chet Helms, dono do salão Avalon, que mandou trazer do Texas uma velha amiga: Janis Joplin (foto abaixo), a futura musa dos hippies, que seria a cantora da banda da casa, o Big Brother & Holding Company.

Em janeiro de 1967, foi convocada uma “Reunião de Tribos” no Golden Gate Park, onde aconteceria o World’s First Human Be-In, que teve a presença de ceca de 20.000 jovens cantando, dançando, cobertos de flores, colares e pulseiras de contas. A partir daí, esperava-se a chegada de 100.000 hippies em junho de 1967, para o chamado Verão do Amor. Vieram 200.000 (foto maior, abaixo) como escrito mais acima. Eles foram chegando, a Comissão de Parques liberou áreas em torno de Haight-Ashbury para sacos de dormir (abaixo, uma imagem fashion no evento).

O Sgt. Peppers Lonely Heart Club Band (Beatles, 1.06.67), contribuiu muito para o deslanchamento do Verão do Amor. Esse disco elevou o rock à categoria de arte. Melodias incandescentes, sons e texturas psicodélicas e justaposição de rock com barroco, faz com que irradie ondas de choque através da paisagem musical.

A exploração turística foi tão grande que, a partir desse evento, os hippies deixaram Haight-Ashbury, e foram viver em comunidades rurais. Sociedade alternativa. Nasceram muitas comunidades. Passaram a criar e elaborar produtos limpos, naturalistas e feitos artesanalmente, que logo foi engolido pelo sistema, que percebeu o potencial comercial desses produtos de consumo com grande apelo conceitual, natural. O que aconteceu em S. Francisco em 1967, refletiu o que estava acontecendo ou iria acontecer em quase todas as cidades do mundo industrializado.

É fato que o espírito criativo e positivo iniciado em 1961começou a desaparecer com a visão horrorosa da Guerra do Vietnã, os assassinatos de John e Robert Kennedy, e de Martin Luther King. O Movimento Hippie é idenficado com a “We decade”, conforme colocou Tom Wolf, em contraposição “a “Me decade” simbolizado pelos anos 70. Colaborou com aspectos inovadores, criativos e humanizadores. O espírito de “conheça-se e expresse-se” do começo e do meio dos anos 60, combinava idealmente com sensibilidade comunitária e identificação grupal. Começou nos EUA nos 60, foi para outros países e teve seu declínio nos anos 70.  Mas deixou marcas para as gerações seguintes: Amor Livre; Vida em comunidade; Negação de todas as regras do capitalismo; Decisões tomadas em conjunto; Agricultura de subsistência; Troca solidária como moeda; Moda: Roupas brilhantes de inspiração indiana, estampas inspiradas em motivos psicodélicos; Valores religiosos com influência oriental; Pacifismo e contra as guerras; Bases do Movimento Ambientalista. Influências na cultura como: HQ; Poesia Concreta; Cultura de Massa; Artes Plásticas: artistas inspiram-se em conceitos hippies para criar suas obras.

A pintura que ilustra a capa do livro acima, é de Isaac Abrams, “All Things Are One Thing” (Todas as coisas são uma coisa só), óleo sobre tela, 1967. Foto de Alan Meyerowitz, para a exposição “Summer of Love”, Arte da Era Psicodélica – 27/5 – 25/9, 2005 – Tate Liverpool, UK www.tate.org.uk/liverpool

O Rolls Royce mais acima pertenceu a John Lennon

* Nature Boy ( Música e Letra de Eden Ahbez)

There was a boy / A very strange and enchanted boy / They say he wandered very far, very far / Over land and sea / A little shy / And sad of eye / But very wise / Was he. / And then one day / A magic day he passed my way / And while we spoke of many things, fools and kings / This he said to me /  “The greatest thing / You never learn / Is just love and be loved in return”.

Tati

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Neurônios em curto

Explicação científica para algumas alucinações visuais causadas por drogas. Interessante:

Psicodelia explicada por neurônios em curto

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“Está cheio de estrelas”, disse o astronauta Bowman enquanto era absorvido pelo Monolito Negro em “2001 – Uma Odisséia no Espaço”. Uma sucessão de imagens psicodélicas (criadas com fotografia slit-scan) representavam então um contato com o Divino, ou o que quer que fosse, já que o próprio Kubrick nunca deixou claro o que diabos aquele final significava. Mas era algo grande, místico, mesmo religioso.

Imagens espirais e túneis de luz afins emergem repetidamente em experiências com drogas alucinógenas, e talvez não por mera coincidência, em iconografias religiosas resultantes de “visões”, como mandalas, arte islâmica ou catedrais cristãs. Não apenas isso, surgem também em experiências de “quase-morte”, alucinações de sinestésicos, cefaléias, epilepsia, distúrbios psicóticos, sífilis avançada, distúrbios do sono, tontura e mesmo em pinturas rupestres de milhares de anos.

Esta universalidade parece indicar algo maior, quiçá contato com planos superiores, ainda que cefaléias, sífilis avançada ou distúrbios psicóticos como meio de se aproximar de deus pareça um tanto bizarro. A neurociência aliada à matemática sugere uma explicação um pouco mais mundana. Porque a ciência já anda investigando o tema.

Nos anos 1920, o neurologista alemão Heinrich Klüver dedicou-se com afinco a estudar os efeitos da mescalina (peyote), e notou como tais padrões geométricos eram repetidamente relatados por diferentes sujeitos (incluindo ele mesmo, mas esta é outra história). Os padrões acabaram classificados no que ele chamou de “constantes de forma”, de quatro tipos: (I) túneis, (II) espirais, (III) colméias e (IV) teias.

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Pois estudos recentes, aliando descobertas sobre o funcionamento do córtex visual a modelos do funcionamento de neurônios sugerem que tais padrões podem surgir simplesmente de uma espécie de curto-circuito no cérebro. Perturbações simples no córtex visual, quando mapeadas ao correspondente que o sujeito perceberia, podem gerar padrões notavelmente similares às constantes de forma psicodélicas.

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À esquerda, a representação da alucinação de um maconhado. Ao lado, a simulação da percepção gerada pela perturbação do córtex visual. Simples assim. Nada de enxergar deus, e sim um produto da forma como nossos neurônios processam imagens, e como reagem assim a perturbações em seu funcionamento. “Está cheio de estrelas”, mas todas em seu cérebro.

Ou não tão simples, é preciso ressalvar. Neurocientistas, cientistas que são, admitem que ainda não conseguem explicar todas as alucinações relatadas. O próprio exemplo acima envolve uma complexidade maior do que os modelos usados, e a simulação envolve mais especulação. Mesmo o modelo utilizado para simular a percepção dos sujeitos frente às perturbações em seu córtex visual é, ainda, rudimentar, envolvendo diversas simplificações. É uma área ainda em exploração, mas pelo visto, extremamente promissora. Explicaria bem porque tanto religiosos em transe quanto drogados e sifilíticos em estado avançado poderiam partilhar as mesmas alucinações visuais. São seres humanos partilhando a mesma estrutura cerebral submetida a alguma perturbação.

O caso lembra um episódio que aconteceu há algum tempo comigo. Escrevo uma coluna promovendo uma “Dúvida Razoável” no blog S&H, tendo como colega o amigo Marcelo del Debbio, que promove sua “Teoria da Conspiração”.

Em uma das colunas, o Marcelo propôs um exercício para que qualquer um pudesse ver o “Prana”: olhar o céu, relaxando os olhos e focar o infinito. Com o tempo, “será possível ver minúsculas bolinhas brancas, às vezes com um pronto preto. Surgem por um segundo ou dois, deixam um ligeiro traço e tornam a desaparecer. Se você persistir na observação e expandir a visão, começará a ver que todo o campo pulsa num ritmo sincronizado”.

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Bem, ao ler sobre tal imediatamente comentei que o exercício e a observação era exatamente o processo indicado para ver “floaters” ou “moscas voadoras” (Muscae Volitantes). Não são elementos espirituais, e sim efeitos óticos: as “bolinhas brancas” ou pretas podem ser desde poeira sobre o olho até partículas flutuando dentro de seu globo ocular. É possível mesmo enxergar a pulsação de glóbulos em veias capilares na retina, “em ritmo sincronizado”.

O Marcelo esclareceu depois que o “Prana” a que se referia seria diferente destes efeitos óticos, que teriam movimento próprio e “formaria emanações a partir de seres vivos”, mas não posso deixar de imaginar que tais características podem ser apenas fruto de impressões subjetivas. Por que, afinal, ver “Prana” tem que envolver um processo idêntico ao usado para ver floaters, que têm uma explicação física simples?

E, voltando à psicodelia: afinal, por que ver tais imagens em transe induzido de diversas formas – a mais simples das quais é a ingestão de drogas alucinógenas, como em diversos cultos – envolve exatamente o processo para gerar perturbações no córtex visual? Por que a iconografia religiosa é tão similar a imagens padrão resultado de curto-circuitos em nosso cérebro?

Místicos podem dizer que é “mera coincidência”, mas estarão violando o dogma misticóide número 1 de que…

Coincidências não existem”.

– – –

Esta nota nem tentou explicar em detalhe os estudos envolvidos. Para tal:
Physics Makes a Toy of the Brain (Science after Sunclipse);
– “What Geometric Visual Hallucinations Tell Us about the Visual Cortex” (PDF) Neural Computation 14 (2002):473–491.

Tirei daqui.

Tati