Modulo 1000

Módulo 1000 – Psicodelia do Rio de Janeiro (Quem tiver esse vinil pra vender… avisa?)

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Lembranças de Lula

Semana passada fomos bombardeadas com a notícia da morte de Lula Côrtes. Em um trabalho sobre a psicodelia, é claro que ele não poderia ficar de fora e dedicamos um capítulo inteiro a ele e seus conterrâneos do Udigrudi.

Udigrudi, de “underground”, era a cena alternativa nordestina e foi dentro deste cenário que Lula brilhou. Como muita gente sabe, uma de suas parcerias, para ser mais exata com Zé Ramalho, resultou em disco – o Paêbiru (1975) – que é hoje tido como relíquia, um dos álbuns, senão “o” álbum, mais caros do país.

Mas não foi só neste disco que ele mostrou seu talento. Satwa (anterior ao Paebiru, de 1973), ao lado de Laílson, é instrumental e como diz na contracapa, suas canções são “produtos mágicos das mentes e dedos de Lailson e Lula”.

Como publicou Fernando Rosa, o Senhor F, “o som predominante do disco, no entanto, é um folk nordestino/oriental, resultado da mistura da cítara popular tocada por Lula, e da viola de 12 cordas de Lailson. Algo como uma sucessão de ragas ou mantras, interpretadas por Cego Aderaldo movido a incenso, cogumelos e outros ‘expansores da musculatura mental’, como diz Arnaldo Baptista”.

(Rosa de Sangue, outro disco, é de 1980)

Entrevistar Lula foi, sem dúvida, uma honra e para homenageá-lo do jeito que podemos, um trecho do livro, com uma das histórias que ele contou, em que foi preso e acabou bebendo cerveja com os policias que o prenderam. Brincando, ele revela um lado mais sério e fala sobre a censura e o preconceito para com os artistas daquela época.

PS> Há um projeto de relançamento do catálogo da Rozenblit (gravadora pernambucana que lançou os discos de Lula). Vamos torcer!

***

Para o artista Lula Côrtes, o mais grave era que os censores eram garotos do interior que se alistavam e não tinham o menor embasamento cultural para classificar nada. “Você ia preso por causa de palavras como desbunde, isso é palavra que existe no dicionário, mas acho que ele relacionou com bunda ou com alguma coisa pornográfica”, lembra. Marco Polo chegou a se aproximar de uma censora, que não entendia as tiradas do letrista: “Era uma senhora até assim simpática, gente fina, ficou minha amiga e tudo. E ela não percebia que eu estava curtindo com a cara dela de tão imbecil que ela era”.

Uma vez, os integrantes do Ave Sangria foram todos presos, acusados de estarem com drogas. Naquele dia, porém, não tinham nada – mesmo assim, só conseguiram sair da delegacia de madrugada. Uma noite, durante um show no elegante Teatro Santa Isabel, Marco Polo pediu à platéia “alguém tem um cigarro aí?”. Lula Côrtes, sentado na beira do palco, atendeu ao pedido. O vocalista tragou com gosto, e a platéia foi abaixo, pensando que era maconha. Marco tranqüilizou: “é palha”. No dia seguinte, foi acordado pela Polícia Federal em sua casa. O policial:

– Marco Polo, vá lá contar que você estava incitando a juventude a fumar maconha.

– Como é que é, bicho?

Marco foi à delegacia e tentou se explicar:

– Não, é o seguinte, estava Lula Côrtes lá, eu pedi um cigarro, ele me deu um cigarro de palha.

Tudo bem. Já saindo, Marco desafiou:

– Mas eu já fumei maconha.

– Epa, espera aí, como é que é?

– Fumei maconha em São Paulo, quando era jornalista do Jornal da Tarde. Um major da Polícia Militar levou maconha pra gente conhecer o cheiro –, caçoou. E foi embora.

A patrulha ideológica em Recife era tão forte que Almir de Oliveira ia armado à faculdade de engenharia, onde estudavam muitos militares que ficavam caçoando do hippie cabeludo. Um dia, juntou-se um grupo: “hoje é dia de cortar o cabelo e dar um banho no hippie!”. Almir tirou o “canhão”, como chama, da bolsa: “Os militares disseram ‘não, não, a gente está brincando’, eu disse ‘mas eu não estou, não’”. Almir acabou largando a faculdade naquele período.

Toda aquela geração produtiva pernambucana foi atingida pela repressão. Desde os tempos da Feira Experimental de Música, Lula Côrtes firmou-se como um guru da cena. Foi parar na cadeia inúmeras vezes. Em uma noite, em um show na Paraíba, o produtor garantiu a Lula que os policiais presentes “eram legais”. Dali a pouco, entra o policial. Lula acabou preso, nu, segurando a bandeja uma bandeja. Numa outra vez, foi detido e, enquanto esperava o camburão, acabou bêbado, de algemas, tomando cerveja com os policiais que o prenderam. Bem menos divertido foi o período em que passou vinte dias em um quartel, preso por visitar um amigo guerrilheiro. A polícia federal o levou de sua casa, encapuzado. Nos primeiros três dias de prisão, foi torturado. Depois, ficou mais de duas semanas em uma solitária, escura, ouvindo choros e gritos. Estava enlouquecendo sem falar com ninguém. Um dia, passou um rapaz em frente à cela.

E Lula:

– Arranja uma coisa para eu ler, pode ser Pato Donald, Recruta Zero, qualquer coisa!

E o menino:

– Tu sabe porque que está aqui?

– Não.

– É porque tu leu demais.

Naquele período, o músico pensou que seria morto, convencido pela tortura psicológica dos policiais. Até que foi jogado com os outros prisioneiros, todos encapuzados, no camburão. Rodaram por horas no calor. Sem saber o que estava acontecendo direito e sem enxergar, Lula lembra que o carro ia parando e os presos iam sendo colocados para fora, um a um, às porradas: “Batia no cara, o cara gritava, eles atiravam, depois diziam ‘vamos embora’”. E os que iam sobrando no camburão ficavam apavorados, chorando, pedindo clemência. Chegou a vez de Lula: deram-lhe uma porrada na testa e o largaram, encapuzado e desmaiado, na frente de sua casa. “Eu acordei de madrugada com o povo em volta de mim falando, ‘o que é isso?’, ‘deve ser comunista’”, lembra o artista, que ficou estirado no chão, sem enxergar, até que um dos presentes sugeriu que lhe tirassem o saco da cabeça. “Esse foi o dia mais torturoso, o dia mais comprido da minha vida. Você fica descompensado depois”.


Psicodelia infantil?

Monica Bergamo de hoje:

No chão: Edgard Scandurra, Taciana Barros, Arnaldo Antunes e Antonio Pinto; no meio: Joaquim Scandurra, Joaquim Pinto e Brás Antunes; ao fundo: Daniel Barros Scandurra, Manuela Pinto, Luzia Barros, Estela Scandurra, Tomé Antunes e Lucas Scandurra

PSICODELIA INFANTIL Os músicos Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra, Taciana Barros e Antonio Pinto decidiram se unir para fazer “música psicodélica” para crianças com a participação dos próprios filhos. O primeiro CD do projeto “Pequeno Cidadão” deve chegar às lojas no dia 2 de maio. Os shows, no estilo matinê, acontecem nos dias 9 e 10, no Sesc Pompeia, e também no novo teatro Anhembi Morumbi, em São Paulo

Aqui.

Tati


Mais documentários

Como já dito por aqui, está rolando o ótimo festival É tudo verdade. Infelizmente não consegui ver ontem o Geração 68. Rolou uma sessão no CCBB-SP com debate depois, mas as obrigações familiares me impediram de comparecer. Em compensação, grata surpresa a noite. Fui sem muita esperança no Cinesesc, nem tinha consultado a programação. Chegando lá, muita fila, alguns famosos – destaque para a presença ilustre de Sandy e seu namorado Lucas – e nenhuma esperança de conseguir entrar para a sessão das 19h de Coração Vagabundo, o documentário sobre Caetano. Estávamos na fila “da esperança”, a de quem não tinha ingresso e ia tentar entrar mesmo assim. 19h50 abriram os portões… e conseguimos! Sentamos no chão, lá na frente, e mesmo assm foi ótimo. O filme é sobre Caetano, então é bem… Caetano. Entendam como quiserem. Mas é bom, divertido. O filme retrata os bastidores da turnê “Foreign Sound” entre 2003 e 2005 e tem depoimentos de fodões tipo Antonioni, Almodóvar e David Byrne. Destaque para a fotografia e a montagem, ótimas. E a trilha sonora é praticamente o disco Transa, de 76, além das canções dos shows. Não tem como ser ruim. Infelizmente, a Sandy e o Lucas saíram à francesa e não pude captar as impressões dois dois sobre o filme.
Outro filme que eu ainda não vi, mas também é do ramo e está na lista, é o filme sobre Simonal. Tem sessão sábado 13h no Cinesesc. A dica é chegar cedo, porque as sessões estão absurdamente cheias. Depois que eu assistir posto as impressões por aqui.

De volta à psicodelia, reunião hoje. Vamos desembestar esse projeto logo.

Tati


Psicodelia Brasileira Recomenda: Diabos e simpatizantes

Eu sei que não é brasileiro, mas quem gosta de música, quem lê estes escritos, com certeza vai simpatizar com o gringo em questão.

Convite de uma cabine que não fui… nhé…

Daylight Film e a 31º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo convidam para a Cabine de Imprensa do filme: The Rolling Stones – Sympathy for the Devil, de Jean Luc Godard.”

Sinopse: Depois da proibição por parte do diretor Jean Luc Godard, que não reconheceu os cortes feitos pelo  produtor feitos no filme Sympathy for The Devil, as duas polêmicas obras serão exibidas juntas. Os filmes são documentários inusitados sobre a contracultura vivida nos anos 60 através do olhar de um dos grandes cineastas do século., ilustrados pelas imagens de uma das maiores bandas de rock, The Rolling Stones. One plus One é o primeiro director`s cut da história do cinema.

 OBS> Os filmes – One plus One e Sympathy for the Devil –  sairão em DVD em novembro – VIVA!!!

Para os que ficaram curiosos, nosso amigo youtube hospeda o trailer do dito cujo, ó:

Logo mais posto coisas novas que recebemos de Daniel Romani – fotos, lambe-lambes, cartazes e flyers de shows do Módulo 1000.

Aline


A Tomada da Pastilha

 

Entrevistamos o Marsicano há algum tempinho. Figuraça. Ele nos mandou um texto que escreveu; este que publico agora neste humilde espaço. O músico falou, refletiu e filosofou sobre a neo-psicodelia.

 

A TOMADA DA PASTILHA

 

“Não sou anão, sou concentrado”

Nelson Ned

 

Rave no Rio. Imerso no lótus roseolaranja do crepúsculo carioca, encontro-me no Parque de Diversões Terra Encantada diante a uma enorme coluna de alto-falantes que está sendo erguida para o mega evento que começará à meia noite. Uma imensa nuvem dourada esboça no céu a forma de um dragão. Penso nas encantadoras ravers Fê e Martina. Num quiosque de mini-pizza aguardo com o DJ Anvil FX e a produtora Luci a passagem de som.

RAVER INTERIORANO

Degusto uma mini-pizza e alguns doces multicores, quando me vem à cabeça a lendária rave em São Carlos, interior de São Paulo, quando apresentava-me com o DJ Ramilson Maia (inventor do drumin’bass). A multidão de dançarinos ululava quando a música foi interrompida quando subi ao palco. A multidão estática esperava ansiosa (bota ansiosa nisso). Mais de cinco mil pessoas na pista e os”técnicos” não conseguiam amplificar meu som: A cítara estava totalmente muda. Ramilson sinalizava arfante aos operadores que tentavam de tudo sem nada conseguir. (Depois fiquei sabendo que o responsável pela sonorização havia ido dormir). A multidão gritava desesperada quando sobe ao palco num pulo um estranho raver interiorano. Verdadeira simbiose entre clubber e cowboy, era um gigante de mais de dois metros envergando um grande chapéu de rodeio e o cabelo verde “raver”. Trincado, armado, e com duas latas de energetizante Pit-Bull na mão, o Tecno-Sérgio Reis bicudão gritava: Toca aí cara!Toca aí!!!

OS SETE ANÕES RAVERS

O parque está sendo fechado e apenas o pessoal da rave tem permissão a permanecer no local. Peço mais uma mini-pizza, enquanto Anvil FX sorve goles fartos de uma fanta laranja geladíssima. De repente, sete anões performers do parque acercam-se e sentam à nossa mesa. Pelo jeito, estavam querendo passar-se por ravers evitando assim o salgado ingresso de cinqüenta reais. Via a cena em 3-D que primava pela extrema surrealidade: Um deles, o Atchim, ia direto ao banheiro e de óculos escuros, saía bicudão bailando em ritmo techno. Sua atitude irreverente e debochada provocava a ira do Zangado que não parava de criticá-lo. Mas o ponto alto do encontro foi o momento em que um dos anões (o Risonho) entregou-me algo parecido com os flyers das raves. Era o panfleto de sua candidatura à deputado federal pelo Partido Verde (“Apoio cultural Gabeira”). Sorridente e bem falante qual político tarimbado, distribuía as filipetas, exclamando sem parar:

– Vote em mim! Vote em mim para deputado federal!

O negão pizzaiolo ao receber o impresso, indignado exclamou:

– Isso é um absurdo! Sabe que você não tem estatura para assumir um cargo público no Congresso Brasileiro!

– Sou o Candidato das Minorias! Exclamou incisivo o baixinho…

Em meio a confusão, o Atchim reaparece de mãos dadas com uma louraça sueca raver de dois metros de altura:

– É isso aí pessoal, disse ele todo prosa, saindo furtivamente com ela rumo a um curioso castelinho (da Bela Adormecida) que ficava a nossa frente. Aproveitei a deixa para perguntar ao Zangado se o Atchim era realmente um garanhão:

Que garanhão nada! Respondeu sarcasticamente o Zangado: No mês passado fomos contratados para uma performance numa casa noturna em Hamburgo (em St. Pauli) e os gays alemães atiravam o Atchim para cima e o encaixavam qual jogo de biboquet!*

 

 

Aline